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22 de Outubro de 2020

O advogado defende qualquer um por dinheiro: realidade ou mito?

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
há 5 anos

Por Anderson Figueira da Roza

A acusação mais comum e leviana que os advogados criminalistas são vítimas da sociedade em geral é esta: advogado criminalista não tem moral para falar sobre crimes e criminosos, afinal ele defende ou acusa qualquer um por dinheiro.

Por Deus, antes de ser um repetidor de informações, pense nos seus conhecidos, procure na sua lista de amigos das redes sociais qual deles é advogado criminalista e pergunte como foi e como é sua carreira.

Advogados criminalistas cobram pelo seu trabalho? Evidentemente que sim, são profissionais e sendo bons, os clientes deverão pagar um preço considerável pelo seu trabalho, como qualquer prestação de serviços, mas cuidado ao generalizar em comentários sobre este tema, pois os advogados criminalistas tiveram um início de carreira, precisam se aperfeiçoar e isso tem um custo cada vez mais elevado.

Porém, os advogados criminalistas passaram por vários processos ao longo da carreira sem receber nada ou muito pouco. Alguns dirão, mais uma conversa de advogado, mas repito, converse com um criminalista e verá o que ele tem a dizer sobre diversos casos que atuou como defensor dativo[1], sendo que muitos deles nomeados na última hora.

Advogados criminalistas são constantemente chamados pelos amigos dos amigos do fulano de tal, que teve um probleminha, mas que precisa muito da ajuda de um excelente defensor, porém este sujeito normalmente está com a situação financeira complicada, e o advogado seja pela questão pessoal, ou pela sua consciência humanitária não vai fugir da luta, estará lado a lado com o indivíduo nesta hora difícil.

Também não é incomum, o advogado criminalista sofrer críticas de membros do Ministério Público e do Poder Judiciário, que por dinheiro, acusa tão bem quanto um Promotor de Justiça, e que suas teses defensivas são violadas na inversão das atuações. Interessante contextualizar que quando estes ocupantes de cargos públicos tão importantes, ao se aposentarem, normalmente formam uma banca de advogados, e geralmente são muito bem recebidos pelos advogados criminalistas.

Uma carreira bem planejada começa a ser definida ainda na universidade, passa por anos de estudo, de atualizações. O Exame da Ordem dos Advogados do Brasil apresenta um grau de dificuldade considerável. Um jovem advogado criminalista se não possuir um familiar que já tem experiência na área ou se não compor uma banca de criminalistas já atuante no mercado, terá muitas dificuldades de alavancar seu nome, e cobrar valores nos mesmos moldes que os renomados.

Aos mais céticos, antes de criticarem os advogados criminalistas, façam uma visita nos fóruns, entrem na sala de audiência de uma vara criminal e observe, que se um advogado criminalista por acaso chegar antes da sua solenidade e a audiência que vai acontecer não for a sua, poderá ser chamado a colaborar com Poder Judiciário e realizar a audiência anterior nomeado na hora, sem tempo até para ler o processo, isso pouca gente sabe, e os que sabem já estão tão acostumados com essa realidade nacional que acham até normal.

Por essas razões, os advogados criminalistas jamais deixam de acreditar nas causas sociais, nem pela falta de recursos de clientes mais necessitados negam um atendimento, algumas vezes passam o contato de outro colega que está iniciando a carreira e quer mostrar serviço. O ciclo da carreira é normalmente assim, os mais experientes conversam alegremente com os colegas mais novos e passam dicas valiosas nestas sessões sem preço algum, pela parceria e pela alegria de estar formando um profissional que depois de um tempo fará o mesmo com os mais novatos.

Fonte: Canal Ciências Criminais


[1] Defensor dativo é aquele advogado que é chamado normalmente por um juiz para atuar num processo onde naquele momento não há defensor público suficiente para a demanda.

O advogado defende qualquer um por dinheiro realidade ou mito

28 Comentários

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Ilmo. Sr. Dr. Anderson Figueira da Roza.

É um belo discurso mas, creio que o sr. deveria falar por si. Acredito em sua palavra como homem e aceito que o sr. é um cidadão honesto e um advogado descente.
A pratica, infelizmente, mostra o contrário. Existem muitos advogados criminalista que são cúmplices de seus clientes. Que levam recados destes para os seus pares fora do sistema carcerário. Que entram nos presídios com celulares e drogas destinados aos seus clientes. E, que, ajudam seus clientes a constrangerem testemunhas que lhes são contrarias.
A advocacia precisa ser revista e transformada em Advocacia.

Caciji continuar lendo

Acrescento ainda que existem Advogados sobrevivendo da criminalidade seja roubo ou assassinatos causando um certo desconforto para as polícias que como todos sabem, é deficitária e inoperante.Tenho amigos que são Advogados Criminalistas que recusam defender alguns clientes quando percebem os atos praticados pelos deliquantes.fico a pergunta:Mesmo com todo respeito a constituição, temos "bandidos" demais nesta terra.Aconteceu um fato curioso que o criminoso sabendo que não poderia ser preso pois a "firma" possui diversos Advogados, e estava com Habeas corpus na mão, acabou cometendo um homicídio contra outro cliente do mesmo advogado que defendera recentemente.Com todo Respeito á Classe,Os"advogados de um criminoso só raras vezes são suficientemente artistas para aproveitar em favor do réu a terrível beleza do seu ato".
Friedrich Nietzsche continuar lendo

Caro Caciji, posso lhe garantir que os advogados que entram neste caminho de favorecimento direto em serviços com seus clientes, acabam sendo descobertos e não raras vezes condenados na instância criminal e também perante à OAB. A vida do desvio, do atalho é curta em qualquer profissão. As tentações existem, e não seria diferente na advocacia criminal, mas a grande maioria dos advogados criminalistas não compactua com estes procedimentos. Seria o mesmo que dizer que todos os policiais são corruptos e que em todas as delegacias se praticam atos de tortura. Lógico que não! continuar lendo

Caro Doutor.
Apoio integralmente suas palavras, e, com sua permissão, as faço minhas.
Minha pretensão foi mostrar o revés da moeda para que as pessoas não creiam que uma formação acadêmica e um número de classe profissional as transformam em seres especiais.
Grato

Caciji continuar lendo

Sou advogada e, falo por mim, por minha dignidade: recuso clientes que não acredito na causa. Antes do dinheiro que poderia ganhar, viso, primordialmente, se o cliente me transmite confiança e um direito que eu acredite, senão, de certo haverá um fracasso adiante e muito arrependimento de ambas as partes.
Advocacia para mim é confiança, sem isto, não há cliente. A causa pode ser grave, porém, se o cliente tem "direito" ao direito, entendo suficiente para lutar por ele!
Em todas as profissões existem inúmeros profissionais que só visam o dinheiro, até em Medicina!!! continuar lendo

Cara Doutora.
Parabéns pela sua postura e por sua conduta.
Permita apenas uma adendo:
na medicina, salvam-se vidas ou para que o paciente sobreviva dignamente ou se for safado e ladrão pague a sua pena na cadeia (isto se ele ladrão não encontrar um advogado que o defenda depois de curado e ainda mova um processo contra o hospital).

Mas gostei de seu pronunciamento. Parabéns. continuar lendo

Excelente artigo em defesa dos advogados criminalistas.

Infelizmente, os advogados de acusação (sociedade em geral), desavisada e desinformada, apregoam que tais profissionais são mercenários e tão cúmplices quantos os criminosos.
Infâmias de quem só vê uma lado da moeda, ou está do outro lado da linha prejudicada.
Sim, esquecem que para toda vítima tem um criminoso, e para ambos os lados, tem uma família, cada qual com seus direitos constitucionais, e estes, poucos conhecem.
No popular, é muito fácil dizer a polícia prende, a justiça solta, ou, ele tem muito dinheiro, paga um bom advogado e não fica preso.
Sim, fácil de mais, esquecem de dois fatores primordiais, smj, básicos e fundamentais;
1- Direito Constitucional - todos tem o direito a defesa (paga ou dativa).
2- O Advogado é um profissional, pagou pelos seus estudos, sua profissão merece proventos como outra qualquer.
O resto, é resto.
Parabéns aos colegas criminalistas, a mim, não é minha praia, foro íntimo. continuar lendo

O resto, não é resto propriamente.
São pessoas que não tem o mesmo entendimento e por isto se manifestam.
Com seu estudo, diploma, registro na Ordem o profissional pode muito bem escolher quem vai defender e como.
Senão vejamos:
1.se um camarada rouba um objeto, vende a outro este objeto, o que compra é receptador de coisa roubada.
2.se um outro camarada rouba dinheiro, e com ele paga um advogado para sua defesa, estamos então no mesmo esquema:
De um lado o ladrão e de outro o receptador.
Ou não ?

Aí está a diferença entre o advogado que escolhe defender quem é ladrão ou ADVOGADO que escolhe defender quem é ou foi roubado. continuar lendo

Caros José Pedro, se seguirmos seu raciocínio, o Direito Tributário não existiria.
Por exemplo:
O delinquente que compra produtos em lojas, paga consultas médicas para seus filhos, etc transforma os fornecedores em receptadores?
E mais, saindo do direito de carne e osso e sangue, um contador que demonstra habilidades em melhor formatação e enquadramento de empresas, na busca da melhor solução visando a redução de carga tributária, transforma os empresários em sonegadores, e seria o mentor intelectual?
Quando um suposto delinquente adquire uma casa, um automóvel, os impostos recolhidos dessas aquisições transforma o Estado também em receptador?
Não sou tributarista, mas uma das primeiras premissas do Direito Tributário é que o dinheiro não tem cheiro, ou seja, comprou, tributou!
Advogado sério, assina contrato de honorários com seus clientes, passa nota fiscal, recolhe tributos, e sua atuação é garantida pela Constituição. continuar lendo

Devo buscar afastar a equivocada afirmação de que "advogado que recebe seus honorários com dinheiro supostamente oriundo do 'crime' deve ser tido como criminoso também". Tal pensamento é absurdo e, acima de tudo, fascista e inaceitável. Pensar assim só enfraquece o direito de defesa e põe em xeque a própria existência do Estado Democrático de Direito. A mesma lógica deve servir para os médicos: caso venham a receber os valores de seus honorários de fonte supostamente ilícita, pagos por um traficante que acabara de ser baleado após ser flagrado coordenando o transporte de grande quantidade de entorpecente, por exemplo, e por isso precisa de cirurgia complexa e de urgência para salvar-se, não pode o profissional da medicina ser responsabilizado por qualquer fato que não deu causa. Com os advogados, acredito, deve se ter o mesmo raciocínio! continuar lendo

Jose Pedro Vilardi, eu não sou advogado e me parece que nem você é, e portanto, posso lhe afirmar, cara, eu já vi alguém dizer muitas asneiras na vida e acabei de ler de vc mais uma: "1.se um camarada rouba um objeto, vende a outro este objeto, o que compra é receptador de coisa roubada. 2.se um outro camarada rouba dinheiro, e com ele paga um advogado para sua defesa, estamos então no mesmo esquema:De um lado o ladrão e de outro o receptador. Ou não ?"
Nãoooo, claro e evidente que não, raciocine: o cara rouba uma grana troca tiro com a polícia e consegue escapar com um ferimento causado por um tiro, paga o médico para lhe retirar a bala e suturas e compra remédios na farmácia com a grana, então o médico e o dono da farmácia são receptadores?
Exemplos iguais a esse se aplica aos montes se usar a imaginação, aliás se vc usar mesmo a imaginação nem em dinheiro vc tocaria, percebe? ele circula, entende? o que está em jogo é o múnus, é o dever, é o mister, é a causa, é a profissão, é o amor á profissão, é a responsabilidade... te convidaria a ler O Dever do Advogado (Rui Barbosa), oração aos Moços do mesmo autor e por ai vai, em especial deixo a vc um artigo do tal Código do Advogado, (Lei nº 4.215, de 27 de abril de 1963), artigo 87, XII: São deveres do advogado:
XII – recusar o patrocínio de causa que considere imoral ou ilícita, salvo a defesa em processo criminal.
Faça agora a seguinte pergunta: porque "salvo a defesa em processo criminal", pense um pouco e as leituras que lhe recomendei ajudarão muito, se me permite assim dizer. continuar lendo

Ainda que o que escrevi tenha causado polemica, continuo com o mesmo pensamento.
Alíás o caro Joaquim Pereira Telles Neto, acima, descreve em sua final, tudo o que se resume no meu pensamento. disse êle (Joaquim)

Código do Advogado, (Lei nº 4.215 , de 27 de abril de 1963), artigo 87, XII: São deveres do advogado:
"XII – recusar o patrocínio de causa que considere imoral ou ilícita, salvo a defesa em processo criminal."

Exatamente: O Advogado tem o DEVER de recusar a causa que considere imoral ou ilícita.
Só que um ex-ministro da Justiça,(falecido) defendeu como advogado o José Dirceu, cobrando R$ 5 milhões. E aí ? continuar lendo

Sempre haverá quem faça apenas por dinheiro, pelo engrandecimento do ego, pelo reconhecimento público, mas existirão também os que façam por profissionalismo.
E um profissional cobrar pelos serviços prestados me parece direito indiscutível.
Um julgamento de classe é inapropriado, já que o corpo dessa classe é absolutamente heterogêneo.
Eu ainda não conheci ninguém que gostasse de ser condenado sem direito à defesa, independente da culpa que pudesse carregar. continuar lendo