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19 de Agosto de 2017

NARCOS: uma lição de como (não) combater o tráfico

Canal Ciências Criminais
há 2 anos

Por Henrique Saibro

A série “Narcos” confirma dois fatos: o talento incontestável de Wagner Moura, que, na América Latina, concorre apenas com o argentino Ricardo Darín, e o fracasso da política de guerra às drogas. Abaixo será explicado o porquê da segunda afirmativa, pois, quanto à primeira, basta assistir a série.

Tudo começou com Reagan, ex-presidente dos EUA, que em 1980 iniciou uma extensa iniciativa de marketing para chegar à eleição, cujo slogan consistia em acabar com as drogas – just say no to drugs.

A ideia, de cunho repressivo, cujo objetivo era “o caminho da salvação da juventude”, foi motivo de pressão dos norte-americanos para que os outros países a implantassem com o mesmo rigor (ou maior) – pressão essa tão grande que levou o ex-presidente FHC, quando de seu mandato, desistir da tentativa de descriminalizar o uso da maconha, aos moldes do já estipulado por Portugal – por coação do ex-presidente Clinton.

Em 1998 o prédio da ONU em NY sediou um encontro com todos os países-membros e todos chegaram à mesma conclusão: eliminar totalmente as drogas do Planeta Terra em 10 anos.

Pois não é que os 10 anos se passaram em 2008 e o resultado dessa política ofensiva é uma das maiores catástrofes da história da humanidade. Para se ter uma noção de tamanho fracasso, após a declaração oficial de guerra às drogas, o consumo de todas elas aumentou assustadoramente: o da maconha aumentou 8,5%; o da cocaína 25%; o da heroína e outros opiáceos 34,5% (BURGIERMAN, 2011). No Brasil, onde antes meninos cheiravam cola, hoje fumam crack, óxi ou merla. A guerra contra as drogas dicotomicamente aumenta o consumo de entorpecentes – e quanto mais perigosa a droga, maior o seu uso.

Ironicamente, como sátiras do destino, atualmente FHC admite o erro de ter aceitado a pressão do Clinton – que herdou a política fracassada de Reagen – para combater, como se guerra fosse, as drogas. A propósito, o próprio Clinton hoje levanta a mesma bandeira de FHC, assim como o secretário de Estado do governo Reagan e o ex-secretário geral da ONU – disponível no relatório War on Drugs.

Creio que seja ingenuidade dizer que a solução para acabar com o tráfico é simplesmente não consumir a droga. O que financia o tráfico não é o usuário, senão a própria proibição – até porque ele apenas existe em razão de o mercado não ser legalizado. Coibir o uso de substância entorpecente é afrontar a história da humanidade, que desde seus primórdios, por razões ainda não definidas, busca alterar o seu estado de consciência – no mundo temos 210 milhões de usuários de drogas ilícitas, dos quais 165 milhões usam somente maconha (BURGIERMAN, 2011).

O que talvez a população não entenda é que legalizar não é sinônimo de incentivar. As experiências hodiernas uruguaias e norte-americanas estão mostrando-se fantásticas. A mudança é cultural. E se a legalização não presta para diminuir o consumo – que, diga-se de passagem, não é o principal foco, senão combater o tráfico –, o que dizer da proibição?

A grande qualidade e quantidade de armamento que as organizações do tráfico possuem só se mostram uma realidade em razão do faturamento astronômico oriundo justamente da traficância – segundo o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), o tráfico fatura, anualmente, a marca de US$ 320 bilhões. Narcos demonstra perfeitamente a fortuna que os traficantes da Colômbia, principalmente Escobar, auferiam com a venda de cocaína – Escobar chegou a faturar cerca de 30 bilhões de dólares por ano. Quanto mais a repressão endurece, mais violentos os traficantes se tornam, mais armas são compradas nos EUA e mais nocivas e abundantes as drogas ficam.

Combater o tráfico de forma austera e pouco estratégica (sem inteligência) é inútil. Se a polícia domina uma boca de fumo, assistirá a boca concorrente prosperar. É um eterno jogo de perde e ganha. Também podemos ver isso com clareza em Narcos. A Colômbia, após ter gasto dezenas de bilhões de dólares no combate ao Cartel de Medellín, observou o Cartel de Cáli surgindo mais forte e ainda mais bilionário em face do enfraquecimento da concorrência.

Se o tráfico, por si só, traz violência, proibir e criminalizar os produtos entorpecentes por ele vendidos piora ainda mais a situação. No México, em face do alto poderio dos traficantes, a corrupção dominou o governo. O que antes era um cartel que controlava o tráfico em paz, Cuidad Juárez, na fronteira com os EUA, agora é a cidade mais violenta do mundo. De 2006 para ca, a guerra contra o narcotráfico virou guerra civil – mais de 40 mil pessoas morreram no país. Para se ter uma noção de tamanha violência, a expectativa de vida de um promotor público em Tijuana em 1996 era semelhante à de um operador de metralhadora nos aviões da Segunda Guerra (BURGIERMAN, 2011).

Esse sistema de repressão enriquece os piores criminosos. É o exemplo de Escobar: se não tivesse tanto dinheiro oriundo do tráfico, não teria cometido seus crimes cinematográficos – p. Ex.: em 27 de novembro de 1989, quando suspeitou que o presidenciável colombiano César Augusto Gaviria Trujillo, que apoiava a extradição de traficantes aos EUA, estaria no Boieng 727 da Avianca, mandou explodi-lo com 107 pessoas dentro. Todos passageiros morreram, menos Trujillo que estava em um avião particular. Aliás, Escobar já havia assassinado no mesmo ano o candidato presidencial Luiz Carlos Galán – justamente por ser a favor de sua extradição aos EUA.

Muitos questionam e julgam, com sobras de moralismo, os integrantes de facções criminosas que lucram com o tráfico de drogas. Todavia, limitam a discussão ao maniqueísmo de rotular cidadãos como de bem e outros como “vagabundos” e “bandidos”. Ok. Não devemos desmerecer pessoas humildes que auferem sua renda com trabalho honesto. Mas não é este o ponto nevrálgico da discussão.

Poucos pensam numa análise econômica do crime como Gary BECKER (ver o genial artigo publicado aqui no canal pela colega e amiga Adriane da Fonseca Pires). O tráfico é que nem uma empresa que paga melhor – há mais pessoas dispostas a trabalhar nela; uma empresa que tem muito dinheiro, pode pagar um salário de até 100 vezes mais do que a realidade do mercado. Você leitor, aceitaria um salário de R$ 20.000 mensais para ser informante do tráfico? Talvez não. Mas e o gari do seu bairro?

Segundo as explicações do economista Peter Reuter, numa cadeia em que folhas de coca são compradas a 50 centavos na América do Sul e uma grama de cocaína é vendida em uma esquina americana por 100 dólares, há uma margem de 99,50 dólares em cada grama de cocaína! Como o custo mostra-se insignificante, todos os envolvidos no processo de traficância podem ser muito bem remunerados – o mesmo economista refere que um piloto de avião pode receber 500 mil dólares para fazer UM ÚNICO VOO transportando 250 kg de cocaína. Essa quantia corresponde a apenas 2% do preço final (REUTER, 2010).

O livro “Economia sem truques” foi indicado a mim por um brilhante economista e amigo de infância, Bruno Job Paganin, para o estudo sobre um olhar econômico bastante pragmático sobre o tráfico de drogas. Os autores sustentam que a variável-chave para o lucro da traficância é a “dicotomia legal versus ilegal” – “e não o bem comercializado em si”. Daí a conclusão de que a “liberação do comércio de entorpecentes terminaria com a profissão do traficante”, tendo em vista que o know how de um líder do tráfico seria muito menos relevante “para o sucesso em um mercado legalizado de drogas do que os conhecimentos de um executivo de uma grande empresa” (GONÇALVES; GUIMARÃES, 2008).

Não se empolgue com a alta tecnologia da polícia atual. Mesmo com helicópteros e camionetes blindadas, apenas 5% da droga que chega à fronteira é apreendida (BURGIERMAN, 2011). Também não se iluda com as megaoperações midiáticas noticiando grandes apreensões de drogas. Em primeiro lugar porque o custo dessas operações é astronômico; em segundo lugar porque a despesa ao traficante decorrente dessas apreensões é como se fosse um pequeno imposto que paga para operar – muito mais baixo do que se cobra para uma indústria legítima.

Vamos bolar uma pequena pergunta que resume todo o imbróglio polícia vs traficante: qual a diferença entre a polícia reforçar a segurança dos bancos, buscando diminuir os assaltos nessas instituições, e aumentar a fiscalização nas bocas de fumo para fins de repressão ao tráfico?

Na primeira medida, de fato, é provável que ocorra uma redução nos crimes de roubo praticados contra bancos. Na segunda hipótese, se as autoridades aumentarem o policiamento em zonas de traficância, além de não coibir o consumo, os vendedores darão risada e aumentarão o preço da droga – obtendo incrivelmente mais lucro.

Você entende, agora, o poder econômico do tráfico de drogas e a fortuna que os verdadeiros traficantes possuem? E compreende, também, o porquê de jovens aceitarem trabalhar no mercado ilícito em detrimento de um labor legítimo – que lhe renderá, no máximo, um pouco mais de um salário mínimo?

Mas não paramos por aqui. Continuamos no próximo capítulo, digo, artigo!

Fonte: Canal Ciências Criminais


REFERÊNCIAS

BURGIERMAN, Denis Russo. O fim da guerra: a maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas. Rio de Janeiro: Leya Brasil, 2011.

GONÇALVES, Carlos Eduardo S.; GUIMARÃES, Bernardo. Economia sem truques: o mundo a partir das escolhas de cada um. 5. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. Pp. 182-183.

REUTER, Peter. Can production and trafficking of illicit drugs be reduced or only shifted. In: KEEFER, Philip; LOYAZA, Normas (orgs.). Innocent bystanders: developing countries and the war on drugs. Washington, DC: World Bank and Palgrave Macmillan, 2010.

NARCOS uma lio de como no combater o trfico

35 Comentários

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“O que financia o tráfico não é o usuário, senão a própria proibição – até porque ele apenas existe em razão de o mercado não ser legalizado.”

Isto se chama “petitio principii”, ou, melhor dizendo, petição de princípio. E na forma falaciosa. É como se o tráfico fosse uma função auto-remuneratória, que ela gerasse dinheiro de si mesma para cobrir sua própria atividade.

Se não existisse usuário de drogas, haveria tráfico por quê? Por esporte? Por que algum rico que gosta de aventura e jogar dinheiro fora manda trazer drogas e depois as guarda para nada?

É óbvio que não! Em algum lugar do caminho da cadeia de produção e venda das drogas haverá que ter um ponto final de onde sairá o dinheiro em caminho oposto. Isto serve para qualquer operação lucrativa de produção, compra e venda de produtos ou serviços. Mas essa romance em torno das drogas criou essa falácia de dizer que não é o usuário (consumidor final, em termo análogo ao CDC) que financia o tráfico (atividade).

Do contrário, seria como dizer que o que financia o contrabando ou o descaminho é a própria proibição. De igual forma, o mercado de peças automotivas roubadas. A lógica é a mesma, inclusive a venda ou troca de produtos roubados (saqueados) também está presente na história da humanidade (nas guerras, na pirataria, nas colonizações, etc.).

Pode até se afirmar que a proibição (ilegalidade) aumenta a margem de lucro do tráfico, o que é verdade. E que alimenta toda uma cadeia de crimes envolta à atividade, assim como o poder dos chefes. Mas dizer que não é o usuário que financia o tráfico é negar noções básicas de economia!

“Daí a conclusão de que a “liberação do comércio de entorpecentes terminaria com a profissão do traficante”, tendo em vista que o know how de um líder do tráfico seria muito menos relevante “para o sucesso em um mercado legalizado de drogas do que os conhecimentos de um executivo de uma grande empresa”

O autor do livro só esqueceu de explicar o porquê isto nunca aconteceu, seja antes da proibição do comércio de entorpecentes, seja nas localidades onde é liberado. Afinal, onde em Portugal, Uruguai, Holanda, Califórnia e Washington DC existe um “executivo de uma grande empresa” que deixou os traficantes “muito menos relevantes”? Onde nestes lugares terminou a figura da “profissão” de traficante?

É muito bonitinho olharmos para os cafés de Amsterdã ou as smokehouses na Califórnia, mas ninguém olha os becos da cidade holandesa ou os bairros pobres de Los Angeles, Oakland e Stockton, por exemplo, onde os traficantes continuam normalmente suas atividades – e, na grande maioria, armados. Esqueceram de combinar os preços com os traficantes, que, por fugirem dos custos oficiais, conseguem vender em menor valor (e ainda ter uma boa margem de lucro). Não pesquisaram os usuários (principalmente os mais pobres) se eles estariam dispostos a pagar mais para ter a mesma droga que consomem.

Fora que onde se precisa de prescrição médica para conseguir a droga passou a existir um comércio ilegal de prescrições falsas. Será que isto também é culpa da proibição de prescrições falsas?

Não consegui ainda assistir a série NARCOS (que está sendo bem avaliada). Mas já assisti outras séries e documentários sobre as drogas, inclusive o “Escobar: o senhor do tráfico” (que passa na Globosat). E uma conclusão que se tira é que com tanto poder e dinheiro envolvido, e com uma procura enorme por drogas por usuários, a situação pós-legalização para o tráfico será praticamente a mesma! Não vai se deixar acabar com facilidade uma atividade lucrativa tão grande que pode compor o PIB de diversos países (a Itália é exemplo de quem fez isto).

A legalização das drogas, a meu ver, serve para aproximar o poder público e os usuários, tirando-os da marginalidade. Serve para aprimorar medidas de desincentivo ao uso (e de uso consciente) e os programas de saúde pública. Também para tentar diminuir o conflito armado entre polícia e traficantes. Por isto sou a favor! Mas não tenho devaneios cheios de glamour sobre isto: o tráfico chegou a determinado ponto que será quase impossível ter volta.

Abraços! continuar lendo

Igor,
Perfeito seu ponto de vista.
Sugiro que publique-o aqui no JusBrasil. continuar lendo

A liberalização do consumo aliada à políticas públicas de prevenção ao uso, ao meu ver, são os primeiros passos para amenizar o problema. Prevenir é o melhor caminho no combate à criminalidade, e isso parte da vontade Estatal em garantir a eficácia dos direitos fundamentais, bem como os esforços das instituições de controle formal e informal.
Luís Flávio Sapori em sua obra "Porquê cresce a violência no Brasil?" aponta como principal causa o tráfico de drogas, aliada a impunidade e à corrupção. Nesse sentido o autor desconstrói com base em dados estatísticos a velha máxima de que o que leva o jovem a aderir ao tráfico seria as desigualdades, ou seja, a falta de oportunidades numa sociedade desigual.
Em sua pesquisa o autor afirma que a condição econômica do brasileiro melhorou no período pós plano real, e que de lá pra ca o acesso às condições básicas melhoraram consideravelmente.
Concordando com o que foi exposto aqui pelos ilustres colaboradores, só queria acrescentar, e pra isso fiz referência à essa obra e a esse renomado sociólogo porque entendo que a impunidade e a corrupção são entraves à qualquer melhoria quando nos referimos à criminalidade como um todo.
O modelo de segurança pública que aqui persiste não atende as demandas sociais, haja vista, que a dicotomia policial lastreada na disputa PM x PC tem trazido prejuízos para o Estado e fortalecido o crime.
Enfim, é um assunto que demanda tempo para ser debatido, porém é sempre bom apreciar as opiniões e tecer algo que venha a somar.
Obrigado à todos por construir um espaço onde o pensamento é exercitado de forma a contribuir para o engrandecimento pessoal e intelectual dos leitores.

Tenham um excelente Dia... continuar lendo

Entendi o ponto de vista dos dois, tanto do Igor como do autor do tópico. Realmente, desconsiderar a função do usuário na cadeia produtiva da droga é impensável (apesar de que acho que o autor não quis dizer exatamente isso), mas você está esquecendo do seguinte: o custo para essa droga chegar ao usuário, no sistema proibitivo atual, é caríssimo!

Separe o custo de produção e distribuição da droga, como se fosse um produto normal, do custo de transpassar a ilegalidade em si, que engloba o superfaturamento de atividades correlatas (um caminhoneiro recebe quase 10.000% a mais para fazer o mesmo serviço no mesmo trajeto), pagamento de propina, armamento (que também é ilegal, por isso, superfaturado - e entra na mesma linha lógica). Convenhamos, há muita margem para distribuir a droga legal a um preço justo.

Para a política de drogas dar certo, a tarefa é simples: distribuir a droga a um preço mais baixo que o traficante. Mesmo taxando a droga a um nível maior que o cigarro (pra mais de 100%), o preço da droga tende a cair absurdamente, se comparado ao do traficante.

O tráfico vai continuar existindo? SIM. Mas não com o poder de hoje. A margem que o traficante vai ter vendendo a droga contrabandeada vai ser muito menor que a de hoje, ele não vai ter caixa suficiente para arcar com todos os custos de propina e armamento existentes hoje. Assim no futuro você vai equiparar a lucrativíssima atividade de traficante de droga à de traficante de cigarro, hoje peixe pequeno frente ao problema das drogas. continuar lendo

Sr. José Tadeu, acho que deveria ser além da liberalização do consumo: seria a legalização de toda cadeia produtiva, desde o plantio até o consumo, inclusive a venda. Não acho lógico manter o usuário no liame do legal e do ilegal, ou seja, sendo legal ele fumar, mas tendo que adquirir a droga com a venda ilegal. Ele continuará na marginalidade.

Sr. Vinícius, embora tenha razão no superfaturamento da droga, existem alguns fatores que não são tão simples assim.

Primeiramente, mesmo com todo o ônus para transportar as drogas até o traficante “final”, uma grande parte do lucro está na venda ao consumidor. A maconha, por exemplo, pode gerar 1.500% de lucro para o traficante “final” (compra-se o quilo por R$ 300 e transforma em R$ 5 mil de lucro), o que demonstra que, mesmo sendo alto o custo, os valores são plenamente compatíveis à venda em massa. Um dos motivos disto é porque o cultivo e processamento da maioria das drogas têm custos bem baixos. Será que uma empresa, sendo tributada desde o plantio, direta e indiretamente, e com a política de sobretaxa para o fumo, conseguirá fazer mais barato que isto?

Segundo, uma das características do tráfico de drogas na América do Sul é sua organização em facções e cartéis, estando interligados. Toda margem de lucro na venda ao consumidor é distribuída aos participantes do processo de entrega das drogas. E a margem de lucro é altíssima, em todas as etapas! Por isto, o superfaturamento de determinados personagens (caminhoneiro, piloto de avião, agentes públicos corruptos, etc.) está englobado nesta alta margem de lucro.

Terceiro é que a comparação com o tabaco (assim como a lei seca) não considera um detalhe importantíssimo: o tabaco e o álcool são legalizados em quase todo o mundo. Há uma cadeia global de agricultura e indústria legal bem consolidada. Os países que não são legalizados são exceções. As drogas estão em situação inversa: as exceções são os países que liberalizaram. Praticamente toda agricultura e “indústria” das drogas estão nas mãos da ilegalidade. Eles possuem toda expertise e intelligentsia das drogas (estão consolidados no mercado). E um poderio financeiro imenso, chegando a ser maior que muitas empresas famosas por ai. Acho muito difícil uma empresa legal vencer essa disputa!

Abraços para ambos! continuar lendo

Quem assiste "Narcos" tem a tendência de torcer mais pelo Escobar e admirá-lo do que os policiais... continuar lendo

Sim, porque quanto mais se humaniza o personagem com riquezas de detalhes sobre sua vida e seus dramas, mais o espectador (ou o leitor) tende a torcer pela vida dele... O fato é extremamente perigoso por acabar compondo uma imagem "glamourosa" do bandido, levando os jovens a se identificarem com ele e a quererem imitá-lo...
E, resumo, nessa história, como em muitas outras, o bandido se torna "herói" aos olhos de quem acompanha sua vida...
Quanto à questão das drogas, fico com citação do filósofo Platão que, em sua obra Górgias, declarou: "Feliz é quem não tem vícios; em segundo lugar, vem a pessoa que se livrou deles."... continuar lendo

Concordo plenamente, Wania! continuar lendo

Perfeita sua explicação, Sra. Wania. É como acontece no filme (e no livro) “400 contra 1”, onde pessoas acabam torcendo para o grupo de presidiários retratados, todavia, estes são nada menos que os fundadores do Comando Vermelho (organização criminosa responsável pelas maiores violências do Rio de Janeiro).

Abraços! continuar lendo

Concordo totalmente contigo Wania Milanez. Fazer da vida do bandido algo glamouroso parece ser algo recorrente. Vemos nos filmes e até nos vídeos-games. Também acho perigoso. continuar lendo

Já na série "Pablo Escobar: O Senhor do Tráfico" , produzida pela emissora colombiana Caracol TV, todo episódio começa com a seguinte frase: "quem não conhece a sua história está condenado a repeti-la" (Edmund Burke). Isso serve de advertência para quem pensa que o tráfico é apenas o glamour. continuar lendo

Infelizmente a série também apresenta algumas incoerências históricas ao tratar o então ditador chileno Augusto Pinochet como um dos "benfeitores" no combate ao narcotráfico da Colômbia.

Nesse contexto, importante trazer o trecho representando o pensamento de Steve Murphy, agente da DEA (Drug Enforcement Administration) responsável pela caçada a Escobar, tentando mostrar o "lado bom" de Pinochet:

“Veja Richard Nixon, por exemplo. As pessoas esquecem, mas 47 milhões de pessoas votaram no Nixon. Nós achávamos que ele era um dos mocinhos. E Nixon achou que o general chileno Pinochet era um dos mocinhos porque ele odiava os comunistas. Então, nós ajudamos Pinochet a tomar o poder. Depois, Pinochet acabou matando milhares de pessoas. Talvez ele não seja um dos mocinhos. Mas, às vezes, os vilões fazem coisas boas. Ninguém sabe, mas em 1973, o Chile estava a caminho de se tornar o maior centro processador e exportador de cocaína do mundo. Havia desertos para esconder laboratórios e quilômetros de litoral não patrulhado para despachar o produto. Mas Pinochet estragou a festa. Ele fechou 33 laboratórios e prendeu 346 traficantes de drogas. Depois, sendo Pinochet, mandou matar todos eles.”

Na verdade, o produtores do seriado esqueceram de esclarecer ao público que foram os próprios narcotraficantes que financiaram o regime ditatorial no Chile e deram origem à fortuna do ditador, estimada em 28 milhões de dólares. continuar lendo

Muito bom, mas a criminalização tem como pano de fundo o interesse de quem ganha muito dinheiro ceifando vidas por um lucro exorbitante. Não vejo interesse político, judiciário e dos orgãos de segurança em acabar com o tráfico, pois este é uma fonte inesgotável de $$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$. continuar lendo

Guerra as drogas me parece mais guerra pelas drogas. Não foi bem - feita em ponto algum do globo. continuar lendo