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24 de Junho de 2017

Faces da Morte: o Legado

Canal Ciências Criminais
ano passado

Faces da Morte o Legado

Por Iverson Kech Ferreira

Nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, uma produtora independente de filmes tendo como diretor John Alan Schwartz, lançou, no mercado underground, o filme Faces da Morte (1979), com suas sete continuações nos anos seguintes. Tal filme traz em sua capa o fato de ter sido banido em mais de quarenta países como se premiação fosse. Após a publicidade nas sombras do primeiro filme ter sido espetacular, novas sequências foram filmadas.

Faces da Morte traz cenas (a maior parte das cenas não são reais, fato que o próprio diretor veio a afirmar numa entrevista anos após) extremamente fortes e com um toque de sadismo muito radical. Cenas de autópsia, abatedouro de animais (essas reais), acidentes e suas vitimas dilaceradas demonstram o sangue frio dos produtores e de todos que participaram do filme.

O cult do terror dos anos 80, bem como auto intitula ser, traz algumas execuções onde teria sido permitido a entrada das câmeras (sic) para capturar o último momento do condenado. Olhos estourando para fora das órbitas do infeliz fadado ao último suspiro na cadeira elétrica, cavalos dilacerando membros saudáveis de algum condenado a morte, onde cada animal puxa para um lado um membro inerte do réprobo. Tais cenas chocam, ainda que sejam em sua maioria montagens, elas alcançam o seu objetivo principal: marcar as pessoas com uma experiência nunca antes vivida. E consegue, de uma forma ou outra.

A questão sobre os filmes, que de fato, foram proibidos em inúmeros países na época, é que o cinema, em especial norte americano, já tratava a morte e o terror das carnificinas há muito tempo, como se uma falta houvesse, um desejo insaciável e perverso. Mesmo que Psicose (1960), sucesso de Alfred Hitchcock, seja hoje considerado um filme leve, no que tange a quantidade de sangue derramado na tela, na época marcou muito, principalmente por tratar-se de uma doença da mente, num país que enfrentava conflitos como a Guerra do Vietnã, onde soldados voltavam com a mente dilacerada e moldada pelos horrores da guerra, Psicose não era tão anormal ou distante assim. Após anos de evolução tecnológica os filmes dessa categoria (terror, horror trash) passaram a integrar a cotidianidade com mais ênfase na realidade das cenas, pois a cada dia um novo thriller surgia com superior tecnologia ao filme de outrora.

A questão do sadismo mescla-se com a crueldade. Entende-se por sadismo o prazer que alguém sente em ver outro sofrer. A crueldade é entendida com o excessivo rigor, ou com o ato bárbaro que aponta desumanidade. Assim, se o sujeito obtém o prazer ao ver alguém sofrer atos desumanos e cruéis pode-se dizer que sadismo também significa aceitar o ato celerado; guardadas as devidas proporções, no filme, um mero entretenimento, ou também, nos telejornais da vida real, que constitui “mera” informação. Se tal ato real ocorre longe de nossa sociedade conhecida, ele é apenas estatístico, surreal, algo que nunca acontece, porem, não algo que nunca deveria acontecer. Isso é preocupante.

Algumas violências vistas no filme Faces da Morte, mesmo que sendo montagens, não são condenadas pelo senso comum, e ainda, são legitimadas pelo Estado. O morto na cadeira elétrica e o homem nas mãos do verdugo que segura o facão que decepar a sua cabeça estão lá por ordem e autorização da lei maior, e por crença de uma maioria de que aqueles condenados são merecedores de tal punição. Algumas das maiores atrocidades da história da humanidade aconteceram com a leniência da população para com certos atos e com a autorização do Estado, do Direito e da Lei.

Na internet, em redes sociais e canais de divulgação como o Youtube, é possível encontrar, muitas vezes, Faces da Morte da vida real, no status quo em que vivemos.

Vários são os flagrantes de mortes por atropelamento, capotamentos e acidentes, confrontos entre policiais e bandidos, linchamentos, apedrejamentos. Para muitos é algo estarrecedor, mas para outros tantos, é apenas uma imagem da vida real. Se Faces da Morte fosse completamente real, nada de diferente teria dos massacres gravados e compartilhados em redes sociais. Já estamos acostumados com todo esse mundo de violências.

De tempos em tempos podem-se notar vídeos de apedrejamentos nos Estados do mundo árabe, carreados por uma violência e um desprezo pela vida deveras particular. Tempos em tempos se pode assistir em alguma comunidade no Brasil, a violência de linchamentos realizados pela população e que deflagram o ato sádico e cruel, intrínseco das mãos que atiram as pedras.

Inúmeros são os casos noticiados de erros cometidos por aqueles que açoitam e desencadeiam a violência contra alguém, tido como estuprador ou ladrão. Tal ato é consequência da sociedade do medo que vivemos, onde qualquer pessoa diferente que esteja passando por nossas ruas pode ser considerada o inimigo. A prevenção contra esse inimigo então passa a ser aceitável, ao rotular como perigo iminente ou imediato.

O legado de Faces da Morte pode não ser apenas a explosão, antes contida, de um sadismo cômico, que aceita fatos anormais como relativamente corretos. Seu legado vai mais além: instaura uma normalidade naquilo que antes poderia ser considerado imoral, um sacrilégio aos olhos dos mais idosos, uma afronta ao que aceita os libertários. Todavia, instaura um épico sentido do utilitarismo pragmático: enquanto a maioria da população que está linchando e vendo os miolos e pedaços do corpo (extremamente sádico e cruel) se decompondo com as pedras e marretadas, estiver contente, pois ali jaz um bandido, não há problema, pois os silentes não contam.

Isso tudo é normal. E matam, aniquilam a vida e rumam para seus lares assistir Jogos Mortais. A sociedade do medo e do risco é também enraizada no espetáculo. De fato, quem assiste corridas de automóveis para ver os carros volteando e circundando uma pista? Todos querem ver é o acidente, o espetáculo do perigo seduz.

Em Gladiador (DreamWorks, 2000) de Ridley Scott, o diretor retirou as cenas onde crianças cristãs eram jogadas na arena para serem devoradas por leões famintos. A famigerada cena ficou nos extras da edição especial do DVD, todavia, mesmo após ter sido realizada junto com o filme, foi banida pelo diretor. Na época do pão e circo romano o espetáculo era real, mas não menos sádico que esquartejar alguém que acham que seja culpado.

A normalidade dos atos passa a ser ainda maior quando ocorre uma violência sem limites nas regiões metropolitanas ou nas comunidades carentes e distintas. Longe dos bairros centrais e longe dos grandes comércios, tal realidade é uma fatalidade. Faces da Morte conseguiu, de uma forma grotesca, trazer um pouco dessa agonia para os lares, para perto dos curiosos expectadores. Todavia, a realidade nos demonstra que, ao ocorrer certo crime em um agrupamento perto do nosso, ou ao nosso lado, o caos, o medo e a desordem são instaurados. Enquanto permanece longe, essa violência é retratada como Faces da Morte, como um filme de péssima qualidade e discutível gosto. Porem, quanto próximo a nós, nos atacando diretamente, ataca nossos iguais, deflagra o pavor de sermos os próximos.

Os seres humanos são divididos, infelizmente, em classes, em bairros, em diversas sociedades que tendem a ter a tensão entre si o estopim de alguma próxima batalha a ser travada. O sadismo e a crueldade nos mostram a que ponto podemos chegar, ainda. Faces da Morte pode não ter sido o chamativo de um grande épico do cinema, mas escancarou a nossa vulnerabilidade: a sociedade do espetáculo e do direito de Hamurabi é capaz de usar certas ferramentas, que, podem, a qualquer momento ser legalizadas e legitimadas pelo seu ente maior, por uma mera luta contra qualquer terror que se afirme existir. Dessa forma Holocaustos, “Guantánamos”, “Carandirus”, entre outras formas de horrores contra a vida, podem vir nossa real Face da Morte, contempladas, amadas e respeitadas por matar.


REFERÊNCIAS

Sandel, Michael J. Justiça: O que é fazer a coisa certa. Civilização brasileira, São Paulo, 2014.

Faces da Morte, Crystal Produtoras, 1978, direção John Alan Schwartz.

Psicose, Shamley Productions, 1960, direção Alfred Hitchcock.

Gladiador, Dreamworks Pictures, 2000, direção Ridley Scott.


Fonte: Canal Ciências Criminais

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