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22 de Setembro de 2019

A criminalidade e a desigualdade social

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
há 3 anos

Por Karla Sampaio

Compreende-se como capitalismo o estado não apenas econômico, de livre mercado, como também a maneira como as pessoas interagem umas com as outras, sem contar ainda seus predicados políticos. Por ser ainda um estado cultural das pessoas nele inseridas, não conseguimos fazer nada a que não esteja atribuído algum tipo de valoração: tudo gira em torno disso, desde a educação, a arte e a música. Parafraseando Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia em 1976, “não há almoço de graça”.

Advinda do capitalismo, a desigualdade social surge como um dos seus maiores problemas.

Sobre o tema, o economista francês Thomas Piketty, a partir dos seus estudos estatísticos, demonstra com clareza a tendência de concentração de riqueza nas mãos de poucos, sendo dele a afirmação de que apenas 1% da população mundial detém 50% do dinheiro do mundo.

Pois bem.

No Brasil, de tempos para cá, estamos ouvindo sobre “redução de pobreza”. Há de se considerar, entretanto, que assim como aumentou a remuneração da população, também o consumo obteve números crescentes, do mesmo modo como a riqueza se tornou ainda mais acastelada nas mãos de poucos. Em outros termos, reduziu-se a pobreza, mas aumentou-se a desigualdade, que somente poderá ser combatida, segundo Piketty, através de políticas tributárias sobre grandes fortunas e, sobretudo, em muito mais educação de qualidade para o aprimoramento dos investimentos.

No Brasil a concentração de renda é muito intensa. O Coeficiente de Gini, usado mundialmente para expressar a concentração de renda, já atingia 0,50 em 1960. Trinta anos depois, aumentadas as desigualdades sociais, o Índice de Gini saltou para 0,63, demonstrando a abissal diferença entre as classes sociais.

Havendo ou não como combater o abismo entre pobres e ricos, o fato é que essa disparidade econômica acaba tendo reflexos importantes na vida de toda a sociedade. Não é a toa que os altos índices de criminalidade geralmente vêm associados a essa diversidade econômica: cresce a desigualdade e cresce a violência.

Do ponto de vista da sociologia, a criminalidade pode ser apartada em violenta e em não violenta. Não é demais salientar que são fatores de natureza econômica, como a falta de oportunidades e a desigualdade social, a mola propulsora para o comportamento criminoso, em especial o violento.

A partir de tal compreensão, é premente a necessidade de redução da criminalidade violenta no país, em especial por meio de melhores políticas governamentais de distribuição de renda para todas as classes sociais. Bem se sabe ainda que o crescimento econômico é muito mais eficaz no combate à pobreza naqueles locais em que a desigualdade de renda é menor. Demais disso, altas taxas de crescimento econômico e estável da população ensejam melhores índices de qualidade de vida.

Em resumo, devemos primar por ações e, sobretudo, por investimentos na educação básica. Somente investimentos em infraestrutura, novas tecnologias e incentivos ao trabalho ajudarão para incrementar o padrão de vida da população, assim contribuindo para o desenvolvimento social e reduzindo as taxas de criminalidade.

Fonte: Canal Ciências Criminais

A criminalidade e a desigualdade social

2 Comentários

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Dra. Karla, gostei muito do seu artigo, mostrou uma visão baseada em empatia e livre de preconceitos. Me lembrou muito minhas aulas de economia política! Ideias bem fundamentadas, mostrando que somente uma pessoa com empatia consegue compreender um mundo diferente do seu. É fácil julgar um grupo social com a cabeça de outro, isso não quer dizer que seja, necessariamente, justo, se não houver o mínimo de compreensão de como é a vida daquele grupo. É fácil julgar os pobres e negros, sendo branco e rico e falando que eles não mudam de vida porque não querem. Fechar os olhos é fácil quando não se depende de um sistema educacional sucateado como o nosso. Acredito também que investimento em educação básica é um dos principais fatores para a redução das desigualdades sociais e, consequentemente, da criminalidade. Me causam repulsa opiniões preconceituosas e baseadas em casuísticas para justificar a desigualdade social. Seu artigo é excelente! Parabéns! continuar lendo

Doutra Karla Sampaio, o artigo é brilhante, porém apresenta a miséria como principal problema social que, combatida pelo próprio agente, se torna mera situação provisória.

Com efeito. Apresento o seguinte texto, escrito com base no pensamento de Theodore Dalrymple.

Os pobres têm responsabilidade por sua condição, defende autor britânico

Eis uma tese polêmica: em boa medida, os pobres merecem sua condição.

Publicado por Walbert Freitas - 6 meses atrás
Por Ricardo Mioto

Eis uma tese polêmica: em boa medida, os pobres merecem sua condição.

Ela está no livro “A Vida na Sarjeta”, de Theodore Dalrymple, lançado no Brasil pela É Realizações. O prefácio é do professor de Stanford Thomas Sowell.

O autor é um psiquiatra britânico que atendeu por vários anos pacientes de bairros pobres e penitenciárias na Inglaterra.

Segundo ele, impera entre eles a vitimização.

“Quando um desses homens me diz, para explicar o seu comportamento [com drogas ou no crime], que se deixa levar facilmente, pergunto-lhe se alguma vez se deixou levar pelo estudo da matemática ou do subjuntivo dos verbos franceses.”

Nas escolas desses locais, os poucos alunos que se dedicam são vítimas de perseguições e agressões físicas. Há constrangimento geral para que todos “optem pelo fracasso”, inclusive pela adoção de vestuário e linguagem característicos do que Dalrymple chama de “subclasse”, que detonam qualquer potencial empregabilidade.

Em outros termos, vocês não se ajudam, está dizendo o britânico.

“Uma das terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano é nascer inteligente e com sensibilidade em um bairro pobre inglês”, escreve Dalrymple. “Será longa a tortura.”

Sowell, que é americano, lembra que, no seu país, algo parecido acontece nos guetos negros –os poucos jovens dedicados aos estudos, que almejam ascender à elite, são espancados por estarem “agindo como brancos”.

Por lá, os intelectuais interpretam isso como uma reação ao racismo da sociedade. Mas como justificar então que a mesma coisa aconteça na Inglaterra, onde a maior parte dos pobres é branca?

Tal desprezo ao estudo e ao trabalho seria recente, posterior ao Estado de bem-estar social, e causada pelo comodismo, escreve o britânico: “Afinal, sempre haverá comida suficiente, um teto sobre a cabeça e uma televisão para assistir, graças às subvenções do Estado.”

Com o passar dos anos, sem nenhum conhecimento de ciência, arte ou literatura, só restará o tédio, a falta de sentido.

“Na ausência de interesses ou carreira, logo a maternidade parece uma boa escolha; só depois fica claro o quanto é aprisionante, especialmente quando o pai –de modo previsível– desaparece.”

Suas casas são imundas e descuidadas, defende Dalrymple, até porque são dadas sem nenhum encargo pelo Estado.

Como o governo parte do princípio de que o miserável nunca tem responsabilidade por sua miséria, as moradias seriam distribuídas justamente aos mais vagabundos –quem, a duras penas, se dedica a conseguir um emprego e tem sucesso na empreitada perde prioridade com os assistentes sociais, o que só reforça o incentivo à passividade.

EDUCAÇÃO

Uma crítica importante que se pode fazer à tese de Dalrymple é que ele próprio admite que a miséria da educação pública tem um papel grande na vida que os pobres acabam levando.

“Meu pai nasceu em um bairro pobre nos anos que antecederam a Primeira Guerra onde uma a cada oito crianças morria no primeiro ano de vida. Naqueles tempos, entretanto, quando algumas crianças londrinas iam à escola descalças, o círculo vicioso da pobreza ainda não havia sido descoberto”, escreve.

“Dessa maneira, meu pai recebeu lições de latim, francês, alemão, matemática, ciências, literatura e história, como se fosse plenamente capaz de ingressar na corrente da civilização superior.”

Dalrymple afirma que isso acabou, por ação da ideologia dos intelectuais, que passaram a defender que educar os jovens pobres para que ingressem na elite, cobrando empenho, seria uma forma de oprimi-los, não de salvá-los. Deveríamos simplesmente aceitar a cultura da “subclasse”, tão válida quando qualquer outra.

“Encorajar as crianças a fugir da herança de infinitas novelas e música pop, pobreza, imundice e violência doméstica é, aos olhos de muitos professores, encorajar a traição à classe social. É algo conveniente, porque absolve o professor da responsabilidade tediosa de ensinar.”

Dalrymple defende que aprender doí. Em outras palavras, ninguém gosta muito –quanto mais uma criança– de ter de se esforçar para entender elementos da gramática ou da aritmética. Mas será impossível sair da pobreza sem essas coisas…

A partir dos anos 1960, surgiu na Inglaterra a noção de que a educação deveria “fazer sentido” no contexto social da criança e ser prazerosa a ela.

Como o contexto social das crianças pobres é o analfabetismo funcional, elas acabaram confinadas à própria condição –“um fato óbvio para quem leu as tentativas lamentáveis de as pessoas da subclasse se comunicarem por escrito”.

VIOLÊNCIA

Por fim, chama a atenção como Dalrymple pinta um retrato de violência nas periferias. Os mesmos homens cujas dores crônicas nas costas lhes impedem, para sempre, de arranjar um emprego, recebendo aposentadorias por invalidez, não perdem uma briga de bar.

Como no Brasil, alguns poucos moradores se refugiam nas igrejas –os “crentes”, tolerados pelos traficantes e bandidos de toda cepa, desde que fiquem na sua.

“Marx estava certo ao dizer que a religião é o suspiro do oprimido, o ópio do povo. É claro, errou a identidade do opressor: na Inglaterra de hoje, não é o plutocrata envaidecido, é o vizinho traficante que ouve música nas alturas e bate com bastão de baisebol nos outros.”

Mas o pior é a violência doméstica, onipresente. A maior parte das crianças não tem pai; os padastros se substituem com rapidez e normalmente batem nas mães.

Muitas das pacientes de Dalrymple são vítimas seriais de agressão doméstica. Ele diz que são raríssimos os casos em que não era evidente que o sujeito era violento antes mesmo do relacionamento.

Mesmo assim, tal comportamento é tolerado por elas, que repetidamente pedem para que ele não faça nenhum tipo de denúncia, porque afinal o agressor agora vai mudar…

“A verdade é que a maioria (embora nem todas) das mulheres espancadas contribuíram para essa situação infeliz pela maneira como resolveram viver.”

Aconselho a leitura dos livros de Theodore (não é o nome dele, mas Anthony Daniels), porque ele é um médico que não aceita pensamentos predominantes, principalmente aqueles que, no Brasil, tratam o despossuído de bens, ouro, prata e educação especial, como vítima do sistema político, social e econômico. continuar lendo