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27 de Julho de 2017

Ser advogado criminalista é, acima de tudo, ser diferente

Canal Ciências Criminais
há 14 dias


Por Valdir Fontoura de Souza Júnior

Enfrentar o novo sempre dá medo, seja ele qual for. Uma nova escola, uma nova cidade, um novo curso de faculdade, uma nova profissão, uma nova vida. Vida? É, vida.

No momento em que escolhemos ser advogados, optamos por mudar a nossa vida. Muda-se o modo de enxergar as coisas, as pessoas, o modo de se portar, de se vestir, o modo de encarar as coisas simples do nosso diaadia.

Mas nós vamos além: nós escolhemos ser advogados criminalistas, o que é ainda mais difícil em tempos sombrios como os de hoje, em tempos de perda de referências positivas na sociedade, de justiceiros midiáticos e salvadores da pátria.

Mesmo assim, nós optamos por enfrentar tudo isso e fazer diferente.

Com todo respeito a todos os outros ramos do direito e aos colegas que atuam em causas cíveis, trabalhistas, corporativas; nós, criminalistas, somos obrigados a pensar, agir e fazer advocacia de uma forma diferente.

Diferente, porque a forma de agir no momento em que nos deparamos com um cliente preso e com sua família desnorteada não está indicada nos manuais, nos códigos, tampouco nas aulas da faculdade.

Ninguém nos disse na cadeira de Processo Penal como atender o primeiro flagrante e como olhar no rosto de uma mãe que teve seu filho preso, sem saber sequer o motivo.

Ninguém nos disse na aula de Teoria da Pena como olhar para um pai e explicar o motivo por que seu filho foi condenado por um crime e agora terá que cumprir uma pena em regime fechado, com apenas algumas horas de sol diárias.

Ninguém nos disse na aula de Direito Constitucional que a presunção da inocência só vale até a foto do nosso cliente sair no jornal e ser exposto para toda a sua comunidade, sem direito a contraditório.

Ninguém nos disse, mas nós aprendemos.

Não se leva muito tempo pra aprender que a advocacia criminal nos faz ser mais frios e ao mesmo tempo sensíveis. Frios, no momento de pensar com a técnica de um jogador; sensíveis, na hora de sentar com uma família daquele que não tem mais ninguém ao seu lado, a não ser nós, criminalistas.

Gigantes colegas já disseram que advocacia não foi feita pra covardes, muito menos a advocacia criminal. Coragem para lidar com pessoas que ultrapassam o limite da lei? Não.

Coragem para ser o último estribo daquele que já não tem mais ninguém. A jornada de advogado criminalista é cheia de frios na barriga, de sentimento de impotência e de pequenos momentos indescritíveis, os pequenos momentos que tornam essa caminhada tão apaixonante.

O frio na barriga é o que nos “mantêm vivos”, não só na advocacia criminal, mas em qualquer momento da nossa vida - quando não o sentir mais, abandone, troque, faça diferente! Esse frio na barriga se sente nos minutos que antecedem uma audiência, naquela momento em que se ouve em plenário:

Com a palavra, a Defesa.

Esse frio na barriga é resultado da responsabilidade por saber que somos a única voz daquela pessoa que se encontra entre a vida e o cárcere – não me digam que cárcere é vida, pois não é.

Ah, esse frio na barriga é o que nos move, dia após dia.

A sensação de impotência se dá quando, diante de certas ilegalidades, a toga fala mais forte que o direito. Quando a caneta é mais pesada que o ser humano, quando o julgador, se torna acusador e quando a nossa voz é simplesmente ignorada. Essa impotência é substituída por coragem.

Coragem para ignorar cargos, títulos e togas. Coragem para ser quem nos comprometemos a ser.

Mas os pequenos momentos indescritíveis, esses sim. Esses são os detalhes que fazem tudo – digo, tudo mesmo – valer a pena. O olhar de agradecimento, o sentimento de dever cumprido, o abraço de um familiar e o travesseiro leve fazem cada minuto de peleja valer a pena.

Parafraseando o brilhante criminalista Jader Marques, pode-se imaginar que a intimação de um alvará expedido para o advogado civilista deve fazer brilhar os olhos, visto que o trabalho rendeu frutos e isso pra nós, advogados, é muito valoroso.

Porém, sou obrigado a dizer que a expedição de um alvará de soltura faz brilhar mais que os olhos, faz brilhar a alma, faz a nossa caminhada ter sentido.

Aquele que já entrou num estabelecimento prisional e viu um pai de família ou um filho caçula daquela família no meio do caos em que se tornou o sistema carcerário vai entender o que quero dizer aqui.

Gosto de pensar que nossa jornada é mais uma missão do que um trabalho. O trabalho é aquele que se faz, sempre com olhos ao proveito econômico – e não estou dizendo que seja dispensável, muito pelo contrário. Todavia, a missão se faz buscando algo maior, buscando a realização, um objetivo além disso.

É, não quero parecer pretensioso em dissecar o cotidiano de um advogado criminal com a minha pouca experiência de dois anos de militância. Contudo, a cada dia aprendo mais, a cada dia surgem novas histórias, novos desafios – e que desafios, hein?

E isso eu gostaria de dividir hoje com os colegas e com aqueles que pretendem seguir essa caminhada. Ninguém vai vencer sem lutar, ninguém vai crescer sem persistir, e a cada dia que passa, mesmo com todas as dificuldades, eu tenho mais certeza de que fiz a escolha certa.

Ainda estou longe de onde quero chegar, mas sou exatamente o que sempre quis ser: Advogado criminalista.

Fonte: Canal Ciências Criminais


8 Comentários

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Belo texto. Parabéns. continuar lendo

Parabéns pelo texto! Faço das suas palavras também as minhas! continuar lendo

Belíssimo artigo, Dr.
Parabéns!!
Muito sucesso nessa caminhada que tenho o prazer de também estar fazendo. continuar lendo

Belíssimo texto!!!
Seus valores de Advogado Criminalista vão mudar, quando aqueles que "estão entre a vida e o cárcere", atentar contra sua família.
Mas mesmo assim, um belo texto! continuar lendo

A interpretação do texto fala justamente do julgador que toma posse como acusador e outras injustiças presentes no processo penal.

Qualquer ser humano se encontra passível de ser dominado pelas emoções. É disso mesmo que o próprio texto fala: da emoção do criminalista ao obter uma vitória contra um edema sistêmico como o punitivismo exacerbado da sociedade em que convivemos.

É por isso mesmo que um criminalista que se preze entende o motivo do judiciário exercer a função de julgador: evitar que o juiz seja imparcial (o que acontece ainda, e muito!). A vítima sempre vai requerer a pior condenação possível para o seu agressor, independente do delito.

Tais valores de criminalista, se ele assim realmente for e não por mera declaração, não mudam quando vitimado. Apenas aqueles que lidam com a liberdade entendem o preço dela e sua jornada. continuar lendo