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22 de Setembro de 2019

O cliente idiota e o policial esperto

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
ano passado

Por Pedro Wellington da Silva

A advocacia é profissão para quem tem estômago. Quando se trata do âmbito criminal, então, o negócio fica ainda mais punk. Em certas ocasiões, o desrespeito lançado em face de alguns advogados é sutil. Já em outras, infelizmente esse desrespeito é nítido.

E antes de continuar esse texto, queira deixar registrado que na carreira policial há bons e maus profissionais. Como em toda profissão. Talvez seja uma visão romântica, mas acredito sinceramente que a grande maioria desempenha um primoroso trabalho na defesa da sociedade e no combate à criminalidade. Por esse grupo de policiais é que nutro um profundo respeito e admiração.

Infelizmente tratarei de um caso cujo vilão faz parte dessa pequena parcela de policiais que não respeitam o preso e nem mesmo seu advogado.

Vamos ao caso.

Certa vez eu estava ajudando a fazer uma mudança. Já tínhamos passado a manha inteira levando móveis para lá e para cá. Quando já era no final da tarde o telefone toca. Do outro lado da linha uma pessoa que estava com o familiar preso por suspeita de receptação.

Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa adequada e rumei à delegacia. A prudência nos ensina que o ideal é ligar na delegacia antes e confirmar se o cliente deu entrada na central de polícia, porém na prática raras vezes o telefone da polícia é atendido...

Ao chegar, imediatamente solicitei que o policial verificasse se o cliente já havia dado entrada no distrito. Instantes depois ele veio confirmando que o cliente já estava lá. Até aqui tudo perfeitamente normal. Mas ele logo acrescentou que o procedimento iria demorar um pouco. Que eu poderia voltar depois de uma hora ou mais.

Falei educadamente (parece óbvio, mas quero deixar claro que em nenhum momento fui grosseiro) que iria esperar ali mesmo e gostaria de falar com o meu cliente para tranquilizá-lo.

POLICIAL: – Doutor, vou ter que falar com o delegado.

Peguei uma revista e comecei a esperar. Passaram-se uns 50 minutos e nada. Fui até o balcão e fiquei olhando para o policial. Ao perceber, ele perguntou de longe se eu já havia sido atendido. Fiz um sinal o chamando.

POLICIAL: – Pois não?

EU: – Estou aguardando sua resposta. O senhor disse que iria conversar com o delegado para que eu pudesse ter contato com meu cliente.

Ele se fez de desentendido e disse que tinha esquecido, mas logo iria conversar. Só que antes de sair ele diz:

POLICIAL: – É até melhor o doutor falar com o cliente antes do interrogatório. Vai que o idiota esquece o que é pra falar.

EU: – Amigo, você esqueceu o que iria fazer e me deixou aqui esperando por quase uma hora e nem por isso eu lhe chamei de idiota. Tenha mais respeito.

É como eu costumo dizer: nem sempre uma pessoa que está presa é ruim, do mundo do crime. Às vezes, estamos falando de uma pessoa de bem, que, por algum motivo, foi selecionado pelo poder punitivo do estado. O problema é que os profissionais que lidam todos os dias com a criminalidade partem do princípio que todo preso é “idiota”.

A questão é que todos os cidadãos merecem respeito, independentemente de ter cometido algum crime ou não. E situações como essas, de ofensas sutis, devem ser combatidas com veemência por quem muitas vezes é a única voz do preso: seu defensor.

Fonte: Canal Ciências Criminais

21 Comentários

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Sou PM e concordo plenamente com o teto exposto, há funcionários de toda espécie em todas as profissões e repartições públicas.
Do mendigo ao presidente, todos merecem respeito. Quanta ignorância quando alguém critica o auxílio -reclusão! Antes de criticar, leia e compreenda o assunto, para depois tentar dar opiniões. Num universo de 100 presos, um ou dois preenchem os requisitos, para que seus dependentes recebam o auxílio-reclusão!
Tem servidores públicos que se portam como deuses, são senhores da Lei e cometem abuso de autoridade.
Só conhece a realidade sobre o preso e a polícia, quem tem ou já teve um ente querido, na prisão!
Há muitos bandidos sem recuperação alguma, mas também há os que se regeneram e outros muitos que são inocentes!
O maior erro é ser leigo e generalizar, tudo! continuar lendo

Tenho um apreço enorme por Policiais (sejam civis ou militares) que nutrem conhecimento e respeito ao próximo. Não precisa concordar com opiniões ou ser "garantista", todavia, necessário é que trate o preso, advogado ou até os civis que presenciam a cena com o mínimo de respeito. E esses, ainda creio que sejam maioria.
A polícia não é (e, em alguns casos, não deveria ser) nossa inimiga.
Parabéns pela consciência.
Abraços José! continuar lendo

Bom dia José Barroso, eu tenho Primo e sobrinho PM e o que você descreveu é a pura verdade, em todas as profissões existem os bons e os maus profissionais, parabéns. continuar lendo

Grande e respeitoso policial, você tem toda razão!
São de agentes deste gabarito que nossa polícia precisa cada vez mais! continuar lendo

Obrigado, Caio! Um dia seremos um povo que respeitará e tratará o próximo, como gostamos de ser tratados! continuar lendo

Parabéns pela lucidez. Principalmente quanto à compreensão do "auxilio reclusão" tão distorcido pelos que insistem em desinformar a população. continuar lendo

Infelizmente hoje todos evitam uma delegacia, só vão se não tiver outro jeito te dão um chá de cadeira e ainda atendem qualquer bambambam que aparece na sua frente, uma vez fui com uma amiga para fazer um B.O pois o marido foi encontrado morto em casa com parada cardíaca, ficamos por mais de 4 horas sem atendimento, detalhe chegamos com os policiais que foram até o local e orientaram o procedimento, quando ela reclamou da demora ainda disseram que era desacato, ela perguntou o que era um corpo ficar a tarde toda em casa com 3 crianças. continuar lendo

Devido a esse e vários outros fatores, já foram feitas várias tentativas para a UNIFICAÇÃO das polícias nos Estados. A PM (militar) conduz o preso até a delegacia, onde o delegado (civil) é quem determina a prisão. Alguns dos obstáculos para essa pretensa unificação, é o fato de sermos (sou Oficial PM da Reserva) considerados Forças Auxiliares do EB, perante a Carta Magna do País, o "endurecimento" dos oficiais da PM (segundo informações) e dos Delegados de Polícia. Eu mesmo, quando na ativa já tive vários problemas em Delegacias de Polícia, quando na condução de detidos e ou suspeitos. O advogado, a meu ver, desde que esteja atuando de acordo com que a Lei lhe confere, tem que ter todos os seus direitos garantidos para o pleno exercício de sua profissão, não importando se o seu cliente é apenas um suspeito ou mesmo um preso em flagrante delito por um crime. continuar lendo