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15 de Outubro de 2018

A escolha pela Advocacia Criminal

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
há 5 meses

Por Bruna Lima e Victória Maia

Ainda na graduação as dúvidas começam: o que fazer após a formatura? Advogar? Seguir carreira pública? Mudar de área? E agora? Todas essas questões são perguntas frequentes e bem normais. São poucas as pessoas que ingressam na faculdade tendo a certeza absoluta de qual carreira seguir. Até porque durante os cinco anos (ou mais) da graduação o jogo pode virar, assim como virou para nós.

Ingressamos na faculdade com os planos fixos de ser Delegada (Bruna) e Defensora Pública (Victória). Tínhamos convicção de que queríamos atuar na área penal. Porém, os planos fixos foram até a formatura. Ou um pouco depois. Até pegarmos a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil.

A vida de concurseiro não é fácil, pois além de ter tempo, disponibilidade para os estudos e dinheiro, é preciso estar com a vida sossegada, sem maiores problemas ao redor para que os estudos fluam e se possa absorver o conteúdo. É preciso muita dedicação.

Estávamos assim, focadas nos concursos, até tocar o celular com um conhecido de um amigo, preso por tráfico de drogas. Aquele telefonema nos assustou, pois afinal já éramos advogadas e nos ligaram pedindo ajuda. O que fazer? Acostumadas com a rotina de estudos, fomos fazer o flagrante.

Não sabíamos nem quanto cobrar. Mas fomos. E deste dia em diante, despertou um sentimento, que hoje temos certeza que já nasceu conosco e apenas aflorou naquele instante: A PAIXÃO PELA ADVOCACIA.

Daquele flagrante em diante foram surgindo indicações, claro que não só na área penal, pois é início. Tudo aconteceu de forma muito natural. A parceria que antes era de estudo para concurso se tornou uma sociedade de advogadas. Uma realidade que parecia tão, tão distante, era verdade.

Como em todas as profissões nem tudo é um mar de rosas. Na Advocacia, também, há dias de luta, dias de glória. Aliás, pensamos que há muito mais dias de luta, do que de glória. Entretanto, isso só alimenta a gana de lutar pela justiça.

Pois somos instrumento para tal, assegurado pela Constituição Federal, como indispensáveis à Administração da Justiça. Somos a barreira entre o poder (enquanto Estado) e o cliente (enquanto réu). Somos o controle da situação. Somos quem estará ao lado daquele que não tem voz no processo penal, impondo o cumprimento das garantias previstas na Carta Magna.

E exercer isso tudo, fazer cumprir o óbvio que é a lei, é muito desgastante, cansativo, mas recompensador, quando se vê desde uma absolvição, um alvará de soltura expedido e, até mesmo, uma condenação com uma pena justa.

Somos ainda jovens Advogadas que aprendemos e crescemos diariamente. E, assim deve ser. Aprendemos com os mais experientes, aprendemos com a prática, aprendemos errando. O importante é aprender.

E a humildade? Não podemos esquecê-la jamais. Neste período advogando uma importante aprendizagem que tivemos desde o início é ser humilde. Humilde na Delegacia, no cartório do Fórum, em Plenário do Júri. E não vamos confundir ser humilde com ser frágil.

Se a autoridade, seja ela qual for, mudar o tom de voz, não te acanha, mas não te rebaixa tanto quanto ela, não seja frágil. Rebata com inteligência, sabedoria, humildade. Arrogância não leva a nada e não traz resultados.

Outra questão importante na carreira do Advogado Criminalista é a lealdade. Lealdade processual, seja com as provas do processo, com o Juiz, com o Promotor, com as testemunhas, com as vítimas.

Lealdade com o cliente. Nunca (e nunca é uma palavra forte) mentir, nunca prometer resultado, nunca vincular o teu trabalho a um resultado. Lealdade em Plenário do Júri, para atrair a confiança dos jurados. A lealdade faz diferença, pois quando se trabalha de forma leal se deixa transparecer a ética.

A ética… Pequena palavra, mas tão importante. A Advocacia Criminal é muito pesada, pois trabalhamos com delitos graves, fortes e em ambientes carregados. Delegacia, presídio, basta ter um mínimo de sensibilidade para perceber o grau de energia carregada que tem esses lugares. E por ser assim, de repente tu vai te fragilizar, mesmo não podendo. E em momentos frágeis, estamos dispostos a nos reerguer.

Assim, aparecem as parcerias desleais, com retorno financeiro rápido e válido. Isso se torna um ciclo vicioso, onde tu não pensa mais no colega que quer trabalhar de forma ética. O negócio é ganhar, lucrar. A ganância cega.

Por isso, aqui vai um alerta: nunca perder a ética de vista. Pois precisamos uns dos outros. É como diz o velho ditado: “uma mão lava a outra”. Porém, de forma ética, nos limites impostos tanto pelo caráter, como pelo próprio Estatuto da Advocacia.

Todos tem espaço na advocacia, por isso, não vale a pena captar clientes dos colegas de forma desleal. Não podemos deixar que o dinheiro, o capital e o lucro falem mais alto do que nossa essência, nossa personalidade, nossos valores. Pois como tudo na vida, há consequências. Mais cedo ou mais tarde, as consequências aparecem.

Não foi fácil noticiar à família e aos amigos que desistimos das carreiras públicas com décimo terceiro, férias, licenças, auxílios, excelentes salários fixos mensais. Ainda mais porque a escolha foi ser Advogada na área criminal. Agora eles já aceitam. Ou melhor, já se acostumaram com a ideia.

Mas sempre que surge um novo edital de concurso, vem a pergunta: não vai fazer o concurso? E a resposta tem sido sempre a mesma: NÃO! Não, porque hoje vivemos a advocacia. Respiramos a advocacia. A advocacia nos habita. Nos move. Nos comove. A advocacia nos fortalece, nos ensina a enxergar no outro, seja ele quem for, na situação que for, um ser humano. Um igual. Um par. Um idêntico.

Portanto, senhores, se pudermos dar uma última dica, caso estejam no dilema advocacia ou concurso público, é que fechem os olhos e reflitam. Escutem o coração de vocês em sintonia com a alma. O dinheiro não traz a felicidade. O dinheiro não traz realizações. Pode trazer de forma momentânea, uma viagem, um jantar.

E todos os outros dias da tua vida? E todos os outros segundos, minutos, horas? Vais encarar como sacrifício ou gratidão? Temos de ser felizes e realizados com a nossa profissão, seja ela qual for. O dinheiro e a estabilidade vêm como consequência, por merecermos isso independente da carreira.

Reforçamos: ouçam o coração e descubram o dom, a vocação que vem de dentro de cada um de nós. Assim, atingiremos a felicidade e a realização plena. Somente assim. Somente assim que descobrimos: nós nascemos advogadas!

Fonte: Canal Ciências Criminais

8 Comentários

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Excelente texto. Parabéns.
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Parabéns pelo texto, é inspirador demais!

No meu caso, não vivi esse dilema (advocacia x concursos) por muito tempo. Quando iniciei o estágio em escritório decidi que queria advogar, mesmo ouvindo discursos pessimistas de vários advogados, que apenas mencionavam as dificuldades da profissão. No entanto, resolvi me espelhar naqueles que eram referências para mim (à época, meus chefes e alguns outros colegas que trabalhavam no mesmo escritório). Esses viviam da advocacia e a exerciam com muito zelo e orgulho.

Depoimentos como esse renovam minhas energias. É sabido que nossa profissão é cheia de mazelas, mas com trabalho árduo e acima de tudo digno e ético, desfrutaremos dos dias de glória. Mais uma vez parabenizo-as pelo excelente texto! Grande abraço! continuar lendo

Parabéns, meninas, pelo texto inspirador!
Começarei a ver a advocacia criminal com outros olhos após este breve relato!
Muito sucesso a vocês! continuar lendo

Dras. Bruna e Victória, parabéns pelo artigo!
Viva a Advocacia Brasileira! continuar lendo