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23 de Setembro de 2021

A arte imitando a vida: por que o filme Joker desconcertou o público?

Por Melani Feldmann

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
há 2 anos

O roteiro de Todd Phillips e Scott Silver transcorre no alvorecer da década de 80. Bruce Wayne é um garoto, filho do bilionário candidato a prefeito Thomas Wayne, e Arthur Fleck, interpretado por Joaquim Phoenix, é um palhaço que divide sua rotina entre cuidar da mãe debilitada e a profissão de comediante.

Portador de distúrbios mentais – expressos na forma de uma risada desvairada –, que se agravam conforme sua carreira naufraga, sua mãe adoece, sua vizinha se apieda e um apresentador de TV faz chacota de sua imagem, Fleck contabiliza desamor, episódios traumáticos e a absoluta ausência de compaixão no mundo.

Conforme se afoga na loucura, ascendendo ao personagem Coringa, Arthur alia-se ao próprio medo empilhando cabeças esmagadas e pessoas alvejadas. A cada morte que soma, nesse País das Maravilhas gótico que é Gotham City, o Coringa se afeiçoa com a violência que aparente possui aversão, e evolui para vingar todos os arlequins do mundo, emprestando choro de pierrô a toda a Gotham e ao pequeno Bruce.

No desenrolar da trama, a guerra do bem contra o mal – cujos papéis estão bem definidos no imaginário popular – desvela no vilão e arqui-inimigo do Batman um homem sofrido e negligenciado pelo aparelho estatal. O desequilíbrio se apodera do ser na medida em que se afasta dos cuidados médicos, dando força à criação do “gênio do crime”. Conforme as gargalhadas exibem uma dor tão implícita e uma vergonha tão poderosa, o personagem sombrio, de personalidade essencialmente violenta, vai angariando do expectador uma empatia desconcertante.

Enquanto a boca de Arthur sorri, seus olhos só passam tristeza. As danças expansivas do mensageiro das trevas retratam homens socialmente marginalizados, na ânsia de que a morte valha mais centavos do que a vida.

A sensação maniqueísta de julgamento raso é esfacelada pelo texto como um trem desgovernado. Trata-se, afinal, de um cordeiro em pele de lobo? Ora, talvez os mocinhos lutem pelo mal disfarçado e, em contrapartida, as máscaras dos bandidos podem esconder motivos nobres não revelados.

Sobrevém a exposição das formas de relacionamento afetivo contemporâneas, entorpecidas na alteridade digital, deslegitimando patrulhas moralizantes e coroando uma narrativa que atravessa a fábula para construir uma caricatura de nossa falência ética. Constrói-se um picadeiro no qual o mestre de cerimônias é o Coringa, a síntese das nossas irretrocedíveis improbabilidades, uma celebração do descontrole que dá lugar ao mal, mas quem paga o preço são os “monstros”.

Num circo que renasce nas cinzas da moral, na fogueira de uma ética que arde, ao ilustrar genuínas emoções de um doente mental, lembramos o quanto esquecemos de ouvir, compreender e dar voz ao outro. A maestria do palhaço abre a Caixa de Pandora e todos os males estão libertos.

A arte imitando a vida

As escadarias, que nas telas dão o tom de ascensão e queda – o triunfo de se libertar é revelado na descida, com melodia e harmonia épicas, em uma subjetiva decadência moral e social –, confirmam que a arte imita a vida. Enquanto coletividade, ao empurramos uns aos outros ladeira a baixo, pensamos estar evoluindo, numa lógica egoísta e desumana de superioridade.

A apoteose vivida por Fleck, ao romper os grilhões da fantasia para dar lugar ao ser que verdadeiramente o habita, assombra nossos porões. Instalado por meio de uma atitude precipitada, o caos reflete um mundo órfão de pacíficos e ajuizados diálogos. Ao comandar a alegoria o palhaço risca a palavra “não” e a frase se torna “esqueça de sorrir”, sepultando a esperança, mitologicamente enjaulada.

A sociedade espera que as pessoas com alguma deficiência ajam como se não as tivessem, choca o ovo da serpente que desesperadamente busca combater. “Nos tempos em o mundo se mostra louco, herói é aquele que mantém o senso de humor”, dizia Sabatini. Entretanto, humor do Coringa não é do tipo que pavimenta, mas que escancara a medida do abismo, tão transparente que se torna invisível.

O desgoverno institucional que vivemos atropela pessoas “inofensivas” sem lhes perguntar o nome, assalta cruelmente valores de dignidade do ser humano sem ao menos lhes proporcionar um lugar no mundo. Nesse cenário a orquestra se rende à batuta do idolatrado palhaço que vivia o trágico dilema: “ser ou não ser, eis a questão”.

As metáforas cirurgicamente dirigidas na produção do filme nos torturam porque aliciam mazelas que todo mundo enxerga, mas ninguém vê, nos enquadram como coautores da barbárie e nos fazem perceber que o fim da origem do vilão é o princípio do nascimento do herói. Esse Estado de Exceção que viola direitos fundamentais em “prol de uma causa maior” ilustra uma impostora artesania de valores, ludibriando os bobos da corte no limite da excelência. Reflexões difíceis sobre questões complexas, buscaremos a glória ou nos contentaremos com a perdição?

Fonte: Canal Ciências Criminais


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23 Comentários

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Toda a ode ao bandido é danosa à sociedade. Aprender como se forma um monstro não significa romantizá-lo (muito menos aumentar fortunas com um filme). Foi idolatrando bandidos e romantizando ladrões e corruptos, que o Brasil se tornou o paraíso da corrupção e o inferno dos que trabalham honestamente para sobreviver. Coringa é um filme dispensável. Filosofar sobre a formação do mal é um bom exercício intelectual e diletante. Mas execrar o bem é a prática dos desviantes sociais, dos criminosos. As pessoas decentes estão fartas de ouvir a cantilena ideológica de que "o delinquente é vítima de uma sociedade opressora". Esse discurso era sedutor nas décadas de 1910/20 e depois revigorado nos 70's e seguintes. Até chegar no paraíso da permissividade atual. Aqui e alhures. E curioso fiquei para saber a qual "regime de exceção" o artigo refere. O de Gotham City? continuar lendo

Vou dar um exemplo. Cliente condenado a 5 anos em regime fechado por roubo (viciado em craque, roubo de mochila de estudante, só pra detalhar). Cumpriu requisitos ao semi-aberto, bom comportamento, trabalho dentro do presídio, saídas temporárias, tudo certo. O juiz de execução na comarca do presídio concedeu prisão domiciliar sem monitoramento eletrônico (detalhe, o indivíduo não tem residência, foi procurar um abrigo público). Se cadastrou no serviço de apoio aos egressos, conseguiu indicação de emprego e foi fazer entrevista, o empregador gostou do currículo do rapaz e pediu pra começar no dia seguinte. Aí começou a queda. Como alterou a comarca o juiz de execução da nova comarca tinha marcado audiência no dia seguinte ao que o rapaz deveria começar a trabalhar. E ao informa o empregador que teria que comparecer essa audiência, foi dispensado com a justificativa de que não poderia já faltar no primeiro dia. E na audiência o juiz de execução da nova comarca estabeleceu o uso de monitoramento eletrônico, com restritiva de manter-se dentro da residência aos domingos (detalhe, o rapaz não tem residência, e o abrigo não abre durante o dia), e assim segue o sujeito, com restrições e sem direito a recomeçar, tomando advertências todo domingo por descumprir exigências impossíveis de cumprir, marginalizado pela sociedade, condenado eternamente. Sou testemunha das tentativas. Talvez seja nesse sentido do caso real que descrevi, que o autor tenha guiado a análise. Sem endeusar nenhum bandido, mas essa é uma excelente receita de como se construir um criminoso contumaz e irrecuperável. Lamentável. continuar lendo

Sergio, enxerguei da mesma forma q vc: ode ao banditismo. Mais do mesmo: bandido é um coitadinho q só se torna um lazarento, desgraçado, destruidor de vidas alheias, pq a sociedade é má e não cantou canções de ninar para ele. continuar lendo

"Aprender como se forma um monstro não significa romantizá-lo" - Exatamente!
É isso que o filme faz. Mostra como se forma um fora da lei, um louco, um assassino.
Mas não é para se dizer "Óh, coitadinho! A vizinha não quis dar pra ele, por isso ele cortou a garganta dela. E o apresentador fez chacota dele, por isso ele explodiu o carro daquele." (PS: Não vi o filme, ainda - espero assistir hoje, com minha esposa, pelos nossos 5 anos juntos *--*).
É para mostrar o que fazemos hoje e eque devemos MUDAR esse rumo da sociedade.
Resumindo: É para consertar o que está errado em nós, não legitimar o que está errado nos criminosos"! continuar lendo

É lindo quando vamos escrever algo, e alguém já escreveu tudo por nós.
Parabéns pelo seu posicionamento!
Esse gênero literário romantizando a criminalidade na mesma medida de ataque deliberado... Me trouxe ânsias de vômito. continuar lendo

"Mas execrar o bem é a prática dos desviantes sociais dos criminosos".... a que "bem" se está referindo nesta frase? Isso é uma análise do filme ou uma forma maniqueísta de afastar ainda mais a fragmentada e fragilizada sociedade da empatia que poderia salvá-la?

As pessoas "decentes" estão fartas de ouvir a cantilena ideológica... quem são as "pessoas decentes"? onde eles vivem? do que se alimentam?

Comentário bélico carregado ideologicamente. continuar lendo

Cara, você realmente não entendeu o que ele quis dizer! Esse filme é mágico porque além dele retratar a década de 80, parece que está retratando os dias atuais! Cara, eu não concordo, por exemplo, em um policial tirar a vida de um inocente por estar combatendo o mal! Isso é uma afronta e faz o leão acordar em qualquer ser humano, até o mais pacífico ou passivo! Nós erramos sim em não tomar a iniciativa de nada! Elegemos o pior presidente da história desse país e olha que eu não imaginava que teria um presidente pior do que o Lula, mas em menos de um ano o bozo conseguiu esse feito, sem contar os governadores, deputados e senadoras! Pelo menos ao meu alento, serão políticos de apenas um mandato! Porque, finalmente, o leão acordou e ele vem das classes mais baixas ou teremos uma guerra civil! E sim estou do lado Coringa, assim como fico do lado do Lúcifer na série netflix! Talvez se você lesse sem se prender a um lado da moeda, não se tornaria o Duas-Caras, outro vilão do Batman! continuar lendo

Alguns comentários parecem mais terem sido escritos a pena, em algum lugar Dos Delitos e Das Penas ... kkkkk ... a advocacia criminal é tratada por alguns colegas do Direito marqueteiro e comercial como se fosse um lugar pra onde vão os advogados do diabo. Parece que a sociedade tem perdido mesmo qualquer sensibilidade, senso crítico e a capacidade de análise textual, e como sempre politiza-se tudo. Talvez precisem tomar um gole da realidade, que é bem distante daquela dos programas sanguinários de TV. Como em uma democracia, ainda que capenga, temos o direito de gostar ou não de algo, se gostou assista, se não gostou não assista. Respeitar o posicionamento dos colegas também é importante. A crítica deve ser respeitosa, e não cheia de qualificações. Ou os doutores vão contestar algo no judiciário da mesma forma? continuar lendo

Não creio no q li, entretanto li. Excusar os crimes insanos cometidos pelo personagem como sendo culpa da sociedade, mais uma vez, não é, na verdade, nada de novo no front do garantismo. Todo crime, aberração, maldade é culpa dos outros e nunca de quem as comete. Mais do mesmo. Eu morrerei dizendo q delinquir, seja de usar drogas a cometer latrocínio, é escolha do indivíduo e quando ele faz essa escolha deve estar condenado à viver com as consequências. continuar lendo

concordo com você!Mas nem tanto '"condenado a viver", mas apenas, Pagar o que fez, Arcar com as Consequências! É um Princípio da Física, uma regra que rege o Universo: "Ação e Resultado/Reação".
Mas a geração atual não quer pagar o preço pelas suas atitudes, não quer ser responsabilizada pelas suas escolhas, querem negar a Lei de Newton!
Como fazem isso? jogando a culpa no (s) outro (s), na figura disforme difusa da 'Sociedade Cruel'!

Como disse um 'sábio tupiniquim': "Matou, estuprou, cometeu latrocínio, [fez Corrupção, desviando milhões de reais que poderiam ir para a Saúde Segurança, Educação] tem que pagar, pô!" É isso! continuar lendo

Pois é, André. Bem pontuado. continuar lendo

Pow, comecei a ler, e estava até gostando. Pensei: "Oba, uma sinopse romanceada do filme. Legal!"
Mas quando começou a lacração, de querer - como disseram acima- romantizar o 'coitado' do Coringa, querendo imprimir nele o 'oprimido da sociedade', aquele pobre coitado que queima os outros vivos no 'microondas' porque a sociedade capitalista cruel não lhe deu afagos de amor', daí o enfado veio!

Não sei até quando manterão essa historinha de defender bandido, querendo imputar ao todo coletivo a responsabilidade pela conduta de alguns desviantes! Até quando? Uma certeza tenho, que subjetivamente considerando cada um que defende esse conto da carochinha, até quando tiver um parente morto a facadas na barriga porque não entregou em um segundo o Rolex que usava, por algumas dessas 'vítimas da sociedade'!

A campanha do Pacote Anticrime do Ministro Moro 'Kent' fala bem a verdade: Quando a lei (e nesse caso aqui, os próprios operadores do Direito) é fraca, quem sofre é a VÍTIMA (esta considerada em si mesma, ou seja, o esfaqueado, ou a família deste).

Chega dessa conversinha mole! FEZ, TEM QUE PAGAR!
Cansado disso! continuar lendo

Excelente artigo ! Impressionante performance do ator Joaquim Phoenix. Depois de assistir o Filme, me veio a tona de quantos Coringas existem no mundo. continuar lendo

Infelizmente em número bem maior que os Batmans que deveriam existir para multiplicar os bons exemplos. continuar lendo