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30 de Março de 2020

Por que algumas pessoas se tornam terroristas?

Por Henrique Britto de Melo

Canal Ciências Criminais, Estudante de Direito
há 6 meses

O terrorismo pode ser definido de diversas formas. Em um sentido amplo, trata-se da execução teatral de um crime contra pessoas ou propriedades onde os ganhos do executor são simbólicos ou psicológicos. Também pode ser caracterizado pela “utilização sistemática do terror especialmente para fins de coerção”, de acordo com o livro “Criminal Behavior: A Psychological Approach”.

A dificuldade em classificar o que de fato é terrorismo é demonstrada pela existência de pelo menos 109 definições diferentes sobre o tema na literatura acadêmica. Entretanto, é possível reunir aspectos gerais que permeiam a maioria das explicações para que possamos compreender quais são os princípios básicos do fenômeno: (1) uso de força e/ou violência (2) por indivíduos ou grupos (3) direcionada para a população civil (4) com o intuito de gerar medo (5) como forma de coagir pessoas a mudarem seu posicionamento político/social.

A falta de consenso sobre a definição de terrorismo é um efeito das múltiplas formas pelo qual o mesmo pode se manifestar e pela variedade de motivações e meios de executá-lo. Também existe um grande número de justificativas e objetivos diferentes, e por isso não há como comprimir todas as espécies desse tipo de crime em uma única categoria.

Também não foi possível elaborar um perfil de indivíduos que “seriam mais propensos” a se tornarem terroristas, já que os membros desse tipo de organização não possuem muitas diferenças do resto da população de suas regiões de origem. Mas apesar disso, existem explicações na literatura científica que podem nos ajudar a compreender melhor o comportamento dos perpetradores e suas motivações para se juntarem a este tipo de causa.

Primeiramente, vamos discutir a ideia de que é preciso ser mentalmente insano para cometer um ato de tamanha violência. Utilizando o livro citado acima como base, vemos que muitas vezes os membros de organizações terroristas são vistos como assassinos psicóticos ou simplesmente loucos. Entretanto, há poucas evidências de que eles possuam transtornos psiquiátricos ou sejam psicopatas.

Isso desafia a crença comum de que é preciso que um indivíduo seja mentalmente desequilibrado para cometer atrocidades como os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, eventos que marcaram o imaginário mundial sobre ataques terroristas e deixaram pelo menos 2900 mortos e mais de 6000 feridos.

Como explicam os pesquisadores Curt R. Bartol e Anne M. Bartol, terroristas demonstram ser mais estáveis que outros tipos de criminosos violentos. Isso se torna mais claro quando pensamos na disciplina necessária para organizar e executar os atentados. Pessoas com transtornos mentais não conseguem se tornar terroristas “eficazes”, pois não possuem a determinação e autocontrole necessários para a concretização das missões.

De fato, grupos bem articulados expulsam indivíduos mentalmente instáveis pois os mesmos representam falhas na segurança da organização e no planejamento dos ataques. Isso indica que o terrorismo é um fenômeno racional que admite que a violência é justificável com base em certas diretrizes morais, e não uma ação agressiva rudimentar motivada por transtornos psicológicos.

Aprofundando mais o assunto, podemos discutir sobre tipologias de terroristas organizadas de acordo com suas motivações. O terrorista racionalmente motivado reflete sobre os objetivos da organização e as consequências de suas ações, desenvolvendo um planejamento elaborado de como causar impacto social e político com os ataques. É possível que ele também procure destruir estruturas com valor simbólico ao invés de focar em causar mortes (há a possibilidade das duas coisas estarem atreladas, pois atacar um prédio ou monumento pode gerar várias vítimas também).

Já o terrorista psicologicamente motivado é incentivado por um profundo sentimento de fracasso ou inadequação que o indivíduo procura redirecionar por meio de vingança. São atraídos para as organizações pelo sentimento de afiliação e pertencimento ao grupo, fatores bastante importantes na construção da identidade de um sujeito. Grupos com líderes carismáticos exercem maior atração nestas pessoas.

Existe uma variação nesta categoria: o indivíduo que planeja e age sozinho. O “lobo solitário” (“lone-wolf”) não é motivado pela sensação de pertencimento ao grupo físico (mas de uma rede virtual), e é incentivado pelo sentimento de poder, autonomia e domínio que vêm da possibilidade de tomar quaisquer decisões sobre os ataques sozinho.

Este tipo de terrorista geralmente possui um grande ressentimento em conjunto com a sensação de alienação social, além de se enxergar como prejudicado pelo “sistema”. Os lobos solitários apresentam uma maior incidência de transtornos mentais. Entretanto, esse texto tem como objetivo discutir o comportamento dos indivíduos que integram organizações terroristas, por isso esta categoria de agressores foi citada apenas como adendo e poderá ser explicada em artigos futuros.

O terrorista culturalmente motivado é impulsionado pelo medo de ameaças ao seu modo de vida e herança cultural. Ele aprende que determinadas organizações ou governos estrangeiros podem prejudicar ou destruir sua nação e seu povo, além de exterminar sua religião. Utilizando o afeganistão durante o comando do talibã como exemplo, vemos que a religião islâmica não forneceu apenas um sistema de crença, mas todo um código moral, social e legislativo para o povo.

Também é uma referência para o julgamento de crimes e para organização da comunidade. Desta forma, uma ameaça ao Islã pode ser interpretada como uma agressão a todas estas bases de uma nação, o que gera o medo de inimigos externos. Isso não significa necessariamente que a própria religião incentiva atentados como forma de defesa (apesar do alcorão apresentar diversas passagens sobre violência direcionada aos “descrentes”), pois existem muitas pessoas que seguem o credo e não participam de organizações terroristas.

É importante lembrar que estas categorias são uma forma bastante didática de compreender as motivações dos sujeitos, porém não é tão simples assim na prática. Um grupo pode ser formado por indivíduos que se encaixam em mais de uma classe ou possuir vários integrantes de categorias variadas.

Além disso, as pesquisas relacionadas ao levantamento de traços de personalidade que ajudem a diferenciar terroristas de “pessoas comuns” foram bastante infrutíferas. Até hoje não sabemos se existem fatores comportamentais que possam ser identificados para fazer essa classificação de forma eficiente. Não há evidências de que eles possuam transtornos de personalidade ou façam uso abusivo de substâncias. Em termos de ocupação, renda e nível educacional, terroristas não são diferentes dos outros cidadãos em seus países de origem.

Então o que se passa na mente deles? Por que fazem o que fazem? Estas perguntas surgem naturalmente quando pensamos sobre o fenômeno do terrorismo. Para refletir sobre estas questões, vamos investigar algumas teorias que esclarecem melhor o assunto. O modelo teórico da busca por significado (quest for significance theory) postula que a necessidade de pertencimento é um fator crucial para a entrada de indivíduos em grupos, pois faz com que as pessoas se sintam como membros importantes para o conjunto que participam e isso lhes dá uma sensação de propósito.

Trata-se do apego ao que um grupo social demonstra valorizar, o que consequentemente gera uma promessa de admiração por integrar certas organizações. A busca por significado parece ser amplificada por 3 fatores principais: grande perda, ameaça de uma grande perda e a promessa de uma grande recompensa. Esta teoria está intimamente relacionada com outros modelos teóricos que propõem que jovens que não possuem um forte senso de identidade têm maior probabilidade de entrarem em grupos terroristas.

Esta ideia pode ser corroborada pelo fato de que a maioria dos terroristas é composta por homens de 20 a 29 anos. Por exemplo, no livro Criminal Behavior explica-se que membros de organizações Irlandesas decidiram participar das ações politicamente violentas por isso lhes trazer um senso de propósito e valor como indivíduos.

A teoria do gerenciamento de terror (terror management theory) também fornece uma visão pertinente ao assunto. Ela trata sobre como as pessoas constroem suas visões de mundo e como isso está relacionado com comportamentos extremistas. Estas formas de ver o mundo são elaboradas como uma maneira de enfrentar emocionalmente o fato de que a morte é inevitável, e por isso os indivíduos podem construir ideias que trazem significado para suas vidas e o conforto de uma imortalidade literal ou simbólica (como a vida após a morte no céu, por exemplo).

Existem fontes ressaltando este fenômeno como um fator importante para a ocorrência do terrorismo, já que as pessoas demonstram mais inclinações agressivas e maior facilidade em apoiar ações militarizadas contra outros grupos quando sentem que suas visões de mundo estão ameaçadas.

A conversão ao terrorismo acontece de forma gradual, com uma série de etapas que envolvem níveis crescentes de comprometimento com a organização e uma dessensibilização acerca do uso da violência. Uma parte do treinamento envolve a estimulação do desengajamento moral (processo já explicado no artigo “Psicologia da Corrupção: Uma abordagem cognitiva”, disponível aqui no canal).

Após longos períodos de interações grupais onde ocorre o compartilhamento de crenças divergentes que justificam comportamentos violentos, os indivíduos começam a relativizar seus conceitos morais e se tornam mais receptivos para ideias agressivas. Isso não significa que as pessoas são transformadas ao entrarem uma organização terrorista, pois o processo geralmente envolve a intensificação de crenças pré-existentes.

Existe um fenômeno que ocorre quando grupos desenvolvem visões mais extremas que os posicionamentos iniciais dos integrantes, o que influencia os envolvidos a amplificarem sua intolerância. Esta tendência é conhecida como risky shift, e pode ser um subproduto bastante destrutivo da necessidade humana de pertencer a agrupamentos.

Além disso, a visão de mundo serve para discutirmos outro aspecto psicológico do terrorismo: a complexidade dos construtos cognitivos. Tais construtos são formas pelas quais um indivíduo percebe e interpreta o ambiente, e eles podem variar quanto à complexidade. Membros de organizações terroristas (com exceção dos líderes) possuem maior probabilidade de possuírem construtos simplificados, já que pessoas que apresentam visões mais complexas apresentam menor chance de se comportarem de forma violenta.

Isso não significa que os agressores são inferiores do ponto de vista cognitivo ou são menos inteligentes, apenas que possuem convicções bastante simplificadas que podem parecer ingênuas e/ou narcisistas. Esta forma de interpretar o mundo é mais presente em pessoas jovens.

Por fim, é necessário lembrar que não existe um fator único para a existência do terrorismo. Este é um evento extremamente complexo que ocorre de várias formas diferentes e possui raízes históricas, econômicas, sociais e muitas outras. Isso impossibilita a existência uma solução simples para o problema. Dentre tais fatores, os aspectos psicológicos deste fenômeno são cruciais para o entendimento do mesmo, mas ainda não são suficientemente estudados.


REFERÊNCIA

Criminal Behavior: A Psychological Approach. Eleventh Edition. Curt R. Bartol; Anne M. Bartol.

Fonte: Canal Ciências Criminais


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